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NA FLORESTA DO ALHEAMENTO
SEI QUE DESPERTEI
e que ainda durmo. O
meu corpo antigo,
moído de eu viver, diz-me que é
muito cedo ainda. . . Sinto-me
febril de longe. Peso-me não sei
por quê. ..
Num torpor lúcido, pesadamente
incorpóreo, estagno, entre
um sono e a vigília, num sonho que
é uma sombra de sonhar.
Minha atenção bóia entre dois
mundos e vê cegamente a profundeza
de um mar e a profundeza de um
céu; e estas profundezas
interpenetram-me, misturam-se, e
eu não sei onde estou nem o
que sonho.
Um vento de sombras sopra cinzas
de propósitos mortos sobre
o que eu sou de desperto. Cai de
um firmamento desconhecido
um orvalho morno de tédio. Uma
grande angústia inerte manuseia-
me a alma por dentro, c incerta,
altera-me como a brisa
aos perfis das copas.
Na alcova mórbida e morna a
antemanhã de lá fora é apenas
um hálito de penumbra. Sou todo
confusão quieta. . . Para que
há de um dia raiar?. . . Custa-me
o saber que ele raiará, como
se fosse um esforço meu que
houvesse de o fazer aparecer.
Com uma lentidão confusa acalmo.
Entorpeço-me. Bóio no
ar, entre velar e dormir, e uma
outra espécie de realidade surge,
e eu em meio dela, não sei de que
onde que não é esse. ..
Surge mas não apaga esta, esta
alcova tépida, essa de uma
floresta estranha. Coexistem na
minha atenção algemada as duas
realidades, como dois fumos que se
misturam.
Que nítida de outra e de ela essa
trêmula paisagem transparente!
. . .
E quem é esta mulher que comigo
veste de observada essa
floresta alheia? Para que é que
tenho um momento de mo perguntar?
. . . Eu nem sei querê-lo saber. .
.
A alcova vaga é um vidro escuro
através do qual, consciente
dele, vejo essa paisagem. . . e
essa paisagem conheço-a há muito,
e há muito que com essa mulher que
desconheço erro, outra
realidade, através da irrealidade
dela. Sinto em mim séculos de
conhecer aquelas árvores, e
aquelas flores e aquelas vias em
desvios c aquele ser meu que ali
vagueia, antigo e ostensivo
ao meu olhar, que o saber que
estou nesta alcova veste de
penumbras de ver. . .
De vez em quando pela floresta
onde de longe me vejo e
sinto, um vento lento varre um
fumo, e esse fumo é a visão nítida
e escura da alcova em que sou
atual destes vagos móveis e
reposteiros e do seu torpor de
noturna. Depois esse vento
passa e torna a ser toda só-ela a
paisagem daquele outro mundo.
..
Outras vezes este quarto estreito
é apenas uma cinza de
bruma, no horizonte d'essa terra
diversa... E há momentos em
que o chão que ali pisamos é esta
alcova visível...
Sonho e perco-me, duplo de ser eu
e essa mulher. . . Um
grande cansaço é um fogo negro que
me consome. . . Uma grande
ânsia passiva é a vida que me
estreita. . .
Ó felicidade baça... O eterno
estar no bifurcar dos caminhos!
. . . Eu sonho e por detrás da
minha atenção sonha comigo
alguém. . . E talvez eu não seja
senão um sonho desse Alguém
que não existe. . .
Lá fora a antemanhã tão longínqua!
a floresta tão aqui ante
outros olhos meus!
E eu, que longe desta paisagem
quase a esqueço, é ao tê-la
que tenho saudades d'ela. e é ao
percorrê-la que a choro e a
ela aspiro. ..
As árvores! as flores! o
esconder-se copado dos caminhos!. . .
Passeávamos às vezes, de braço
dado, sob os cedros e as
olaias, nenhum de nós pensava em
viver. A nossa carne era-nos
um perfume vago e a nossa vida um
eco de som de fonte.
Dávamo-nos as mãos e os nossos
olhos perguntavam-se o que
seria o ser sensual e o querer
realizar em carne a ilusão do
amor. ..
No nosso jardim havia flores de
todas as belezas. . . rosas
de contornos enrolados, lírios de
um branco amarelecendo-se,
papoulas que seriam ocultas se o
seu rubro lhes não espreitasse
presença, violetas pouco na margem
tufada dos canteiros miosótis
mínimos, camélias estéreis de
perfume. . . E, pasmados por cima
de ervas altas, olhos, os
girassóis isolados fitavam-nos grandemente.
Nós roçávamos a alma toda vista
pelo frescor visível dos
musgos e tínhamos, ao passar pelas
palmeiras, a intuição esguia
de outras terras. . . E subia-nos
o choro à lembrança, porque
nem aqui, ao sermos felizes o
éramos. . .
Carvalhos cheios de séculos
nodosos faziam tropeçar os nossos
pés nos tentáculos mortos das suas
raízes. . . Plátanos estacavam...
E ao longe, entre árvore e árvore
de perto, pendiam
no silêncio das latadas os cachos
negrejantes de uvas. . .
O nosso sonho de viver ia adiante
de nós, alado, e nós
tínhamos para ele um sorriso igual
e alheio, combinado nas
almas sem nos olharmos, sem
sabermos um do outro mais do que
a presença apoiada de um braço
contra a atenção entregue do
outro braço que o sentia.
A nossa vida não tinha dentro.
Éramos fora e outros. Desconhecíamo-
nos. como se houvéssemos aparecido
às nossas almas
depois de uma viagem através de
sonhos. . .
Tínhamo-nos esquecido do tempo, e
o espaço imenso empequenara-
se-nos na atenção. Fora daquelas
árvores próximas,
daquelas latadas afastadas,
daqueles montes últimos no horizonte
haveria alguma cousa de real, de
merecedor do olhar aberto
que se dá às cousas que existem?.
. .
Na clepsidra da nossa imperfeição
gotas regulares de sonho
marcavam horas irreais. . . Nada
vale a pena, ó meu amor longínquo,
senão o saber como é suave saber
que nada vale a pena. . .
O movimento parado das árvores; o
sossego inquieto das fontes;
o hálito indefinido do ritmo
íntimo das seivas; o entardecer
lento das coisas, que parece
vir-lhes de dentro e dar mãos de
concordância espiritual ao
entristecer longínquo, e próximo à
alma do alto silêncio do céu; o
cair das folhas, compassado e
inútil, pingos de alheamento, em
que a paisagem se nos torna
toda para os ouvidos e se
entristece em nós como uma pátria
recordada — tudo isto, como um
cinto a desatar-se, cingia-nos,
incertamente.
Ali vivemos um tempo que não sabia
decorrer, um espaço
para que não havia pensar em
poder-se medi-lo. Um decorrer
fora do tempo, uma extensão que
desconhecia os hábitos da
realidade no espaço. . . Que
horas, ó companheira inútil do meu
tédio, que horas de desassossego
feliz se fingiram ali. . . Horas
de cinza de espírito, dias de
saudade espacial, séculos interiores
de paisagem externa. . . E nós não
nos perguntávamos para que
era aquilo que não era para nada.
Nós sabíamos ali. por uma intuição
que por certo não tínhamos.
que este dolorido mundo onde
seríamos dois, se existia,
era para além da linha externa
onde as montanhas são hábitos
de formas, e para além dessa não
havia nada. E era por causa
da contradição de saber isto que a
nossa hora de ali era escura
como uma caverna em terra de
supersticiosos, e o nosso senti-la
era estranho como um perfil de
cidade mourisca contra um céu
de crepúsculo outonal.
Orlas de marés desconhecidas
tocavam, no horizonte de ouvirmos,
praias que nunca poderíamos ver, e
era-nos a felicidade
escutar, até vê-lo em nós, esse
mar onde sem dúvida singravam
caravelas com outros fins em
percorrê-lo que não os fins úteis e
comandados da Terra.
Reparávamos de repente, como quem
repara que vive, que o
ar estava cheio de cantos de ave,
e que, como perfumes antigos
em cetins, o marulho esfregado das
folhas estava mais entranhado
em nós de que a consciência de o
ouvirmos.
E assim o murmúrio das aves, o
sussurro dos arvoredos e o
fundo monótono esquecido do mar
eterno punham à nossa vida
abandonada uma auréola de não a
conhecermos. Dormimos ali
acordados dias, contentes de não
ser nada, de não ter desejos
nem esperanças, de nos termos
esquecido da cor dos amores e
do sabor dos ódios. Julgávamo-nos
imortais. . .
Ali vivemos horas cheias de um
outro sentirmo-las, horas
de uma imperfeição vazia e tão
perfeitas por isso, tão diagonais
à certeza retângula da vida. . .
Horas imperiais depostas, horas
vestidas de púrpura gasta, horas
caídas nesse mundo de outro
mundo mais cheio de orgulho de ter
mais desmanteladas angústias
. . .
E doía-nos gozar aquilo, doía-nos.
. . Porque apesar do que
tinha de exílio calmo, toda essa
paisagem nos sabia a sermos
deste mundo, toda ela era úmida de
um vago tédio, triste e enorme
e perverso como a decadência de um
império ignoto.. .
Nas cortinas da nossa alcova a
manhã é uma sombra de luz.
Meus lábios, que eu sei que estão
pálidos, sabem um ao outro
a não quererem ter vida.
O ar do nosso quarto neutro é
pesado como um reposteiro.
A nossa atenção sonolente ao
mistério de tudo isto é mole
como uma cauda de vestido
arrastada num cerimonial no crepúsculo.
Nenhuma ânsia nossa tem razão de
ser. Nossa atenção é um
absurdo consentido pela nossa
inércia alada.
Não sei que óleos de penumbra
ungem a nossa idéia do nosso
corpo. O cansaço que temos é a
sombra de um cansaço. Vemnos
de muito longe, como a nossa idéia
de haver a nossa
vida. . .
Nenhum de nós tem nome ou
existência plausível. Se pudéssemos
ser ruidosos ao ponto de nos
imaginarmos rindo, riríamos
sem dúvida de nos imaginarmos
vivos. O frescor aquecido dos
lenços acaricia-nos (a ti como a
mim decerto) os pés que se
sentem, um ao outro nus.
Desengunemo-nos, meu amor, da vida
e dos seus modos. Fujamos
a sermos nós. . . Não tiremos do
dedo o anel mágico que
chama, mexendo-se-lhe, pelas fadas
do silêncio e pelos elfos da
sombra e pelos gnomos do
esquecimento. . .
E ei-la que, ao irmos a sonhar
falar nela, surge ante nós, outra
vez, a floresta muita, mas agora
mais perturbada da nossa perturbação
e mais triste da nossa tristeza.
Foge diante dela, como
um nevoeiro que se esfolha, a
nossa idéia do mundo real, e eu
possuo-me outra vez no meu sonho
errante, que esta floresta
misteriosa esquadra. . .
As flores, as flores que ali vivi!
Flores que a vista traduzia
para seus nomes, conhecendo-as, e
cujo perfume a alma colhia.
não nelas mas na melodia de seus
nomes.. . Flores cujos nomes
eram repetidos em seqüência,
orquestras de perfumes sonoros.
Árvores cuja volúpia verde punha
sombra e frescor no
como eram chamadas. . . Frutos
cujo nome era um cravar de
dentes na alma da sua polpa. . .
Sombras que eram relíquias de
outroras felizes. . . Clareiras,
clareiras claras, que eram sorrisos
mais francos da paisagem que se
boceja em próxima. . . ó
horas multicolores!. . .
Instantes-flores, minutos-árvores, ó tempo
estagnado em espaço, tempo morto
de espaço coberto de
flores, e do perfume de flores, e
do perfume de nomes de
flores!. . .
Loucura de sonho naquele silêncio
alheio!...
A nossa vida era toda a vida... O
nosso amor era o perfume
do amor. . . Vivíamos horas
impossíveis, cheias de sermos
nós. . . E isto porque sabíamos,
com toda a carne da nossa
carne, que não éramos uma
realidade. . .
Éramos impessoais, ocos de nós,
outra coisa qualquer. . . Éramos
aquela paisagem esfumada em
consciência de si própria. . .
E assim como ela era duas — de
realidade que era, e ilusão
— assim éramos nós obscuramente
dois, nenhum de nós sabendo
bem se o outro não era ele-próprio,
se o incerto outro vivera.
. .
Quando emergimos de repente ante o
estagnar dos lagos sentíamo-
nos a querer soluçar. . . Ali
aquela paisagem tinha os
olhos rasos de água, olhos parados
cheios de tédio inúmero de
ser. . . Cheios, sim, do tédio de
ser qualquer coisa, realidade ou
ilusão — e esse tédio tinha a sua
pátria e a sua voz na mudez e
no exílio dos lagos... E nós,
caminhando sempre e sem o
saber ou querer, parecia ainda
assim que nos demorávamos à
beira daqueles lagos, tanto de nós
com eles ficava e morava, simbolizado
e absorto. . .
E que fresco e feliz horror o de
não haver ali ninguém! Nem
nós, que por ali íamos, ali
estávamos. . . Porque nós não éramos
ninguém. Nem mesmo éramos coisa
alguma.. . Não tínhamos
vida que a morte precisasse para
matar. Éramos tão tênues e
rasteirinhos que o vento do
decorrer nos deixara inúteis e a hora
passava por nós acariciando-nos
como uma brisa pelo cimo de
uma palmeira.
Não tínhamos época nem propósito.
Toda a finalidade das
coisas e dos seres ficara-nos à
porta daquele paraíso de ausência.
Imobilizar-se, para nos sentir
senti-la, a alma rugosa dos
troncos, a alma estendida das
folhas, a alma núbil das flores, a
alma vergada dos frutos. . .
E assim nós morremos a nossa vida,
tão atentos separadamente
a morrê-la que não reparamos que
éramos um só, que cada
um de nós era uma ilusão do outro,
e cada um, dentro de si, o
mero eco do seu próprio ser. . .
Zumbe uma mosca, incerta e mínima.
. .
Raiam na minha atenção vagos
ruídos, nítidos e dispersos, que
enchem de ser já dia a minha
consciência do nosso quarto...
Nosso quarto? Nosso de que dois,
se eu estou sozinho? Não sei.
Tudo se funde e só fica, fingindo,
uma realidade-bruma em que
a minha incerteza soçobra e o meu
compreender-me, embalado
de ópios, adormece. . .
A manhã rompeu, como uma queda, do
cimo pálido da Hora.
. . Acabaram de arder, meu amor,
na lareira da nossa vida,
as achas dos nossos sonhos.. .
Desenganemo-nos da esperança,
porque trai, do amor, porque
cansa, da vida, porque farta, e
não sacia, e até da morte, porque
traz mais do que se quer e menos
do que se espera.
Desenganemo-nos, ó Velada, do
nosso próprio tédio, porque
se envelhece de si próprio e não
ousa ser toda a angústia que é.
Não choremos, não odiemos, não
desejemos. . .
Cubramos, ó silenciosa, com um
lençol de linho fino o perfil
hirto da nossa Imperfeição. . .
O MARINHEIRO
A CARLOS FRANCO
Um quarto que é sem dúvida num
castelo antigo. Do quarto
vê-se que é circular. Ao centro
ergue-se, sobre uma essa, um
caixão com uma donzela, de branco.
Quatro tochas aos cantos.
À direita, quase em frente a quem
imagina o quarto, há uma única
janela, alta e estreita, dando
para onde só se vê. entre dois montes
longínquos, um pequeno espaço de
mar.
Do lado da janela velam três
donzelas. A primeira está sentada
em frente à janela, de costas
contra a tocha de cima da direita.
As outras duas estão sentadas uma
de cada lado da janela.
É noite e há como que um resto
vago de luar.
PRIMEIRA VELADORA. - Ainda não deu
hora nenhuma.
SEGUNDA. - Não se podia ouvir. Não
há relógio aqui perto.
Dentro em pouco deve ser dia.
TERCEIRA. - Não: o horizonte é
negro.
PRIMEIRA. - Não desejais, minha
irmã, que nos entretenhamos
contando o que fomos? É belo e é
sempre falso. . .
SEGUNDA. - Não, não falemos disso.
De resto, fomos nós
alguma cousa?
PRIMEIRA. - Talvez. Eu não sei.
Mas, ainda assim, sempre é
belo falar do passado... As horas
têm caído e nós temos guardado
silêncio. Por mim, tenho estado a
olhar para a chama
daquela vela. Às vezes treme,
outras torna-se mais amarela,
outras vezes empalidece. Eu não
sei por que é que isso se dá.
Mas sabemos nós, minhas irmãs, por
que se dá qualquer
cousa?. . .
(uma pausa)
A
MESMA.
- Falar no passado —
isso deve ser belo, porque é
inútil e faz tanta pena. . .
SEGUNDA. - Falemos, se quiserdes,
de um passado que não
tivéssemos tido.
TERCEIRA. - Não. Talvez o
tivéssemos tido. . .
PRIMEIRA.
- Não dizeis senão
palavras. Ê tão triste falar! É
um modo
tão falso de nos esquecermos!... Se passeássemos?. . .
TERCEIRA. - Onde?
PRIMEIRA.
- Aqui, de um lado para
outro. Às vezes isso vai
buscar
sonhos.
TERCEIRA. - De quê?
PRIMEIRA. - Não sei. Por que o
havia eu de saber?
(uma pausa)
SEGUNDA.
- Todo este país é
muito triste... Aquele onde eu
vivi outrora era menos triste. Ao
entardecer eu fiava, sentada
à minha janela. A janela dava para
o mar e às vezes havia uma
ilha ao longe. . . Muitas vezes eu
não fiava; olhava para o mar e
esquecia-me de viver. Não sei se
era feliz. Já não tornarei a
ser aquilo que talvez eu nunca
fosse. . .
PRIMEIRA.
- Fora de aqui,
nunca vi o mar. Ali, daquela janela,
que é a única de onde o mar se vê,
vê-se tão pouco!...
O mar de outras terras é belo?
SEGUNDA.
- Só o mar das
outras terras é que é belo. Aquele
que nós vemos dá-nos sempre
saudades daquele que não veremos
nunca...
(uma pausa)
PRIMEIRA. - Não dizíamos nós que
íamos contar o nosso passado?
SEGUNDA. - Não, não dizíamos.
TERCEIRA. - Por que não haverá
relógio neste quarto?
SEGUNDA.
- Não sei... Mas
assim, sem o relógio, tudo é
mais afastado e misterioso. A
noite pertence mais a si própria.
.. Quem sabe se nós poderíamos
falar assim se soubéssemos
a hora que é?
PRIMEIRA.
- Minha irmã, em mim
tudo é triste. Passo dezembros
na alma.. . Estou procurando não
olhar para a janel
a . . . Sei que de lá se vêem, ao
longe, montes... Eu fui feliz
para além de montes, outrora... Eu
era pequenina. Colhia
flores todo o dia e antes de
adormecer pedia que não mas tirassem
. . . Não sei o que isto tem de
irreparável que me dá vontade
de chorar.. . Foi longe daqui que
isto pôde ser. . . Quando
virá o dia?...
TERCEIRA.
- Que importa? Ele vem
sempre da mesma maneir
a . . .
sempre, sempre, sempre...
( uma pausa )
SEGUNDA.
- Contemos contos
umas as outras... Eu não sei
contos nenhuns, mas isso não faz
mal... Só viver é que faz
mal.. . Não rocemos pela vida nem
a orla das nossas vestes. . .
Não, não vos levanteis. Isso seria
um gesto, e cada gesto interrompe
um sonho. . . Neste momento eu não
tinha sonho nenhum,
mas é-me suave pensar que o podia
estar tendo. . . Mas
o passado — por que não falamos
nós dele?
PRIMEIRA.
- Decidimos não o
fazer. . . Breve raiará o dia e
arrepender-nos-emos... Com a luz
os sonhos adormecem... O
passado não é senão um sonho... De
resto, nem sei o que não é
sonho. . . Se olho para o presente
com muita atenção, pareceme
que ele já passou... O que é
qualquer cousa? Como é que ela
passa? Como é por dentro o modo
como ela passa?. . . Ah.
falemos, minhas irmãs, falemos
alto, falemos todas juntas.. .
O silêncio começa a tomar corpo,
começa a ser cousa. . . Sinto-
o envolver-me como uma névoa. . .
Ah, falai, falai!...
SEGUNDA.
- Para quê?...
Fito-vos a ambas e não vos vejo
logo. . . Parece-me que entre nós
se aumentaram abismos. . .
Tenho que cansar a idéia de que
vos posso ver para poder chegar
a ver-vos. . . Este ar quente é
frio por dentro, naquela parte
em que toca na alma... Eu devia
agora sentir mãos impossíveis
passarem-me pelos cabelos — é o
gesto com que falam
das sereias.. . (Cruza as mãos
sobre os joelhos. Pausa). Ainda
há pouco, quando eu não pensava em
nada. estava pensando
no meu passado.
PRIMEIRA. - Eu também devia ter
estado a pensar no meu. . .
TERCEIRA.
- Eu já não sabia em
que pensava... No passado
dos outros talvez..., no passado
de gente maravilhosa que nunca
existiu... Ao pé da casa de minha
mãe corria um riacho. . .
Por que é que correria, e por que
é que não correria mais longe.
ou mais perto?. . . Há alguma
razão para qualquer coisa ser o
que é? Há para isso qualquer razão
verdadeira e real como as
minhas mãos?
SEGUNDA.
- As mãos não são
verdadeiras nem reais. . . São
mistérios que habitam na nossa
vida... às vezes, quando fito as
minhas mãos, tenho medo de Deus..
. Não há vento que mova
as chamas das velas, e olhai, elas
movem-se.. . Para onde se
inclinam elas?... Que pena se
alguém pudesse responder!.. .
Sinto-me desejosa de ouvir músicas
bárbaras que devem agora
estar tocando em palácios de
outros continentes.. . É sempre
longe da minha alma. . . Talvez
porque, quando criança, corri
atrás das ondas à beira-mar. Levei
a vida pela mão entre rochedos,
maré-baixa, quando o mar parece
ter cruzado as mãos
sobre o peito e ter adormecido
como uma estátua de anjo para
que nunca mais ninguém olhasse. .
.
TERCEIRA. - As vossas frases
lembram-me a minha alma. . .
SEGUNDA. - É talvez por não serem
verdadeiras. . . Mal sei
que as digo. . . Repito-as
seguindo uma voz que não ouço que
mas está segredando. . . Mas eu
devo ter vivido realmente à beira-
mar... Sempre que uma cousa
ondeia, eu amo-a... Há
ondas na minha alma. . . Quando
ando embalo-me. . . Agora
eu gostaria de andar.. . Não o
faço porque não vale nunca a
pena fazer nada, sobretudo o que
se quer fazer. . . Dos montes
é que eu tenho medo. . . É
impossível que eles sejam tão
parados e grandes. . . Devem ter
um segredo de pedra que se
recusam a saber que t ê m . . . Se
desta janela, debruçando-me,
eu pudesse deixar de ver montes,
debruçar-se-ia um momento
da minha alma alguém em quem eu me
sentisse feliz.. .
PRIMEIRA. - Por mim, amo os
montes. . . Do lado de cá de
todos os montes é que a vida é
sempre feia... Do lado de lá,
onde mora minha mãe, costumávamos
sentarmo-nos à sombra
dos tamarindos e falar de ir ver
outras terras. . . Tudo ali era
longo e feliz como o canto de duas
aves, uma de cada lado
do caminho. . . A floresta não
tinha outras clareiras senão os
nossos pensamentos... E os nossos
sonhos eram de que as
árvores projetassem no chão outra
calma que não as suas somb
r a s . . . Foi decerto assim que
ali vivemos, eu e não sei se
mais alguém. . . Dizei-me que isto
foi verdade para que eu não
tenha de chorar. . .
SEGUNDA. - Eu vivi entre rochedos
e espreitava o m a r . . . A
orla da minha saia era fresca e
salgada batendo nas minhas pernas
nuas... Eu era pequena e bárbara.
. . Hoje tenho medo de
ter sido. . . O presente parece-me
que durmo. . . Falai-me das
fadas. Nunca ouvi falar delas a
ninguém... O mar era grande
demais para fazer pensar nelas...
Na vida aquece ser pequeno.
. . Éreis feliz, minha irmã?
PRIMEIRA. - Começo neste momento a
tê-lo sido outrora. . .
De resto, tudo aquilo se passou na
sombra... As árvores viveram-
no mais do que eu. . . Nunca
chegou quem eu mal esperava.
. . E vós, irmã, por que não
falais?
TERCEIRA. - Tenho horror a de aqui
a pouco vos ter já dito o
que vos vou dizer. A minhas
palavras presentes, mal eu as diga,
pertencerão logo ao passado,
ficarão fora de mim, não sei onde.
rígidas e fatais. . . Falo. e
penso nisto na minha garganta, e as
minhas palavras parecem-me gente.
. . Tenho um medo maior
do que eu. Sinto na minha mão, não
sei como, a chave de uma
porta desconhecida. E toda eu sou
um amuleto ou um sacrário
que estivesse com consciência de
si próprio. É por isto que me
apavora ir, como por uma floresta
escura, através do mistério
de falar. . . E afinal, quem sabe
se eu sou assim e se é isto sem
dúvida que sinto?. . .
PRIMEIRA.
- Custa tanto saber
o que se sente quando reparamos
em nós!. . . Mesmo viver sabe a
custar tanto quando se dá
por isso. . . Falai, portanto, sem
reparardes que existis. . . Não
nos íeis dizer quem éreis?
TERCEIRA.
- O que eu era
outrora já não se lembra de quem
sou. . . Pobre da feliz que eu
fui!... Eu vivi entre as sombras
dos ramos, e tudo na minha alma é
folhas que estremecem.
Quando ando ao sol a minha sombra
é fresca. Passei a fuga
dos meus dias ao lado de fontes,
onde eu molhava, quando sonhava
de viver, as pontas tranqüilas dos
meus dedos... Às vezes,
à beira dos lagos, debruçava-me e
fitava-me. . . Quando
eu sorria, os meus dentes eram
misteriosos na água. . . Tinham
um sorriso só deles, independente
do meu. . . Era sempre sem
razão que eu sorria. . . Falai-me
da morte, do fim de tudo, para
que eu sinta uma razão para
recordar. . .
PRIMEIRA.
- Não falemos de
nada, de nada. . . Está mais frio,
mas por que é que está mais frio?
Não há razão para estar mais
frio. Não é bem mais frio que
está. . . Para que é que havemos
de falar?. . . É melhor cantar,
não sei por quê... O canto,
quando a gente canta de noite, é
uma pessoa alegre e sem medo
que entra de repente no quarto e o
aquece a consolar-nos... Eu
podia cantar-vos uma canção que
cantávamos em casa de meu
passado. Por que é que não quereis
que vo-la cante?
TERCEIRA.
- Não vale a pena,
minha irmã. . . Quando alguém
canta, eu não posso estar comigo.
Tenho que não poder recordar-
me. E depois todo o meu passado
torna-se outro e eu choro
uma vida morta que trago comigo e
que não vivi nunca.
É sempre tarde demais para cantar,
assim como é sempre tarde
demais para não cantar. . .
(uma pausa)
PRIMEIRA.
- Breve será dia...
Guardemos silêncio... A
vida assim o quer. Ao pé da minha
casa natal havia um lago.
Eu ia lá e assentava-me à beira
dele, sobre um tronco de árvore
que caíra quase dentro da água. .
. Sentava-se na ponta e
molhava na água os pés, esticando
para baixo os dedos. Depois
olhava excessivamente para as
pontas dos pés, mas não era para
os ver. Não sei por quê. mas
parece-me deste lago que ele
nunca existiu. . . Lembrar-me dele
é como não me poder lembrar
de nada. . . Quem sabe por que
é que eu digo isto e se
fui eu que vivi o que recordo?. .
.
SEGUNDA. - À beira-mar somos
tristes quando sonhamos...
Não podemos ser o que queremos
ser, porque o que queremos ser
queremo-lo sempre ter sido no
passado. . . Quando a onda se
espalha e a espuma chia. parece
que há mil vozes mínimas a
falar. A espuma só parece ser
fresca a quem a julga uma. . .
Tudo é muito e nós não sabemos
nada. . . Quereis que vos
conte o que eu sonhava à
beira-mar?
PRIMEIRA. - Podeis contá-lo, minha
irmã: mas nada em nós
tem necessidade de que no-lo
conteis. . . Sc é belo, tenho já pena
de vir a tê-lo ouvido. E se não é
belo. esperai. . .. contai-o só
depois de o alterardes. . .
SEGUNDA. - Vou dizer-vo-lo. Não é
inteiramente falso, porque
sem dúvida nada é inteiramente
falso. Deve ter sido assim. . .
Um dia que eu dei por mim
recostada no cimo frio de um
rochedo, e que eu tinha esquecido
que tinha pai e mãe e que
houvera em mim infância e outros
dias — nesse dia vi ao longe,
como uma coisa que eu só pensasse
em ver. a passagem vaga
de uma vela. . . Depois ela
cessou. . . Quando reparei para
mim, vi que já tinha esse meu
sonho. . . Não sei onde ele teve
princípio. . . E nunca tornei a
ver outra vela. . . Nenhuma das
velas dos navios que saem aqui de
um porto se parece com
aquela, mesmo quando é lua e os
navios passam longe devagar.
. .
PRIMEIRA. - Vejo pela janela um
navio ao longe. É talvez
aquele que vistes.. .
SEGUNDA. - Não, minha irmã; esse
que vedes busca sem dúvida
um porto qualquer. . . Não podia
ser que aquele que eu vi
buscasse qualquer porto. . .
PRIMEIRA. - Por que é que me
respondestes?. . . Pode ser. . .
Eu não vi navio nenhum pela
janela. .. Desejava ver um e
falei-vos dele para não ter pena.
. . Contai-nos agora o que foi
que sonhastes à beira-mar. . .
SEGUNDA. - Sonhava de um
marinheiro que se houvesse perdido
numa ilha longínqua. Nessa ilha
havia palmeiras hirtas,
poucas, e aves vagas passavam por
elas. . . Não vi se alguma vez
pousavam. . . Desde que,
naufragado, se salvara, o marinheiro vivia
ali. . . Como ele não tinha meio
de voltar à pátria, e cada
vez que se lembrava dela sofria,
pôs-se a sonhar uma pátria que
nunca tivesse tido; pôs-se a fazer
ter sido sua uma outra pátria,
uma outra espécie de país com
outras espécies de paisagem,
e outra gente, e outro feitio de
passarem pelas ruas e de se
debruçarem das janelas. . . Cada
hora ele construía em sonho
esta falsa pátria, e ele nunca
deixava de sonhar, de dia à sombra
curta das grandes palmeiras, que
se recortava, orlada de bicos,
no chão areento e quente; de
noite, estendido na praia, de costas
e não reparando nas estrelas.
PRIMEIRA.
- Não ter havido uma
árvore que mosqueasse sobre
as minhas mãos estendidas a sombra
de um sonho como
esse!. . .
TERCEIRA.
- Deixai-a falar. .
. Não a interrompais. . . Ela
conhece palavras que as sereias
lhe ensinaram.. . Adormeço para
a poder escutar... Dizei, minha
irmã, dizei... Meu coração
dói-me de não ter sido vós quando
sonháveis à beira-mar...
SEGUNDA.
- Durante anos e
anos, dia a dia, o marinheiro
erguia num sonho contínuo a sua
nova terra natal. . . Todos
os dias punha uma pedra de sonho
nesse edifício impossível. . .
Breve ele ia tendo um país que já
tantas vezes havia percorrido.
Milhares de horas lembrava-se já
de ter passado ao longo de
suas costas. Sabia de que cor
soíam ser os crepúsculos numa
baía do Norte, e como era suave
entrar, noite alta, e com a
alma recostada no murmúrio da água
que o navio abria, num
grande porto do Sul onde ele
passara outrora, feliz talvez, das
suas mocidades a suposta. ..
(uma pausa)
PRIMEIRA. - Minha irmã, por que é
que vos calais?
SEGUNDA.
- Não se deve falar
demasiado.. . A vida espreitanos
sempre. .. Toda a hora é materna
para os sonhos, mas é
preciso não o saber. . . Quando
falo demais começo a separarme
de mim e a ouvir-me falar. Isso
faz com que me compadeça
de mim própria e sinta
demasiadamente o coração. Tenho então
uma vontade lacrimosa de o ter nos
braços para o poder embalar
como a um filho. . . Vede: o
horizonte empalideceu.. . O
dia não pode já tardar. . . Será
preciso que eu vos fale ainda
mais do meu sonho?
PRIMEIRA.
- Contai sempre,
minha irmã, contai sempre...
Não pareis de contar, nem repareis
em que dias raiam... O dia
nunca raia para quem encosta a
cabeça no seio das horas sonhadas.
. . Não torçais as mãos. Isso faz
um ruído como o de
uma serpente furtiva. . .
Falai-nos muito mais do vosso sonho.
Ele é tão verdadeiro que não tem
sentido nenhum. Só pensar
cm ouvir-vos me toca música na
alma. . .
SEGUNDA. - Sim. falar-vos-ei mais
dele. Mesmo eu preciso de
vo-lo contar. À medida que o vou
contando, é a mim também
que o conto... São três a
escutar... (De repente, olhando
para o caixão, e estremecendo.)
Três não. . . Não sei. . . Não
sei quantas. . .
TERCEIRA. - Não faleis assim...
Contai depressa, contai
outra vez. . . Não faleis em
quantos podem ouvir. . . Nós nunca
sabemos quantas coisas realmente
vivem e vêem e escutam...
Voltai ao vosso sonho. . . O
marinheiro. O que sonhava o marinheiro?.
. .
SEGUNDA (mais baixo, numa voz
muito lenta). - Ao princípio
ele criou as paisagens; depois
criou as cidades; criou depois
as ruas e as travessas, uma e uma,
cinzelando-as na matéria
da sua alma — uma a uma as ruas,
bairro a bairro, até às muralhas
do cais de onde ele criou depois
os portos. . . Uma a
uma as ruas, e a gente que as
percorria e que olhava sobre elas
das janelas... Passou a conhecer
certa gente, como quem a
reconhece apenas. . . Ia-lhes
conhecendo as vidas passadas e as
conversas, e tudo isto era como
quem sonha apenas paisagens
e as vai vendo. . . Depois
viajava, recordado, através do país
que criara. . . E assim foi
construindo o seu passado. . . Breve
tinha uma outra vida anterior. . .
Tinha já, nessa nova pátria,
um lugar onde nascera, os lugares
onde passara a juventude, os
portos onde embarcara... Ia tendo
tido os companheiros da
infância e depois os amigos e
inimigos da sua idade viril. . .
Tudo era diferente de como ele o
tivera — nem o país, nem a
gente, nem o seu passado próprio
se pareciam com o que haviam
sido. . . Exigis que eu continue?.
. . Causa-me tanta pena
falar disto!. . . Agora, porque
vos falo disto, aprazia-me mais
estar-vos falando de outros
sonhos. . .
TERCEIRA. - Continuai, ainda que
não saibais por quê. . .
Quanto mais vos ouço, mais me não
pertenço.. .
PRIMEIRA. - Será bom realmente que
continueis? Deve qualquer
história ter fim? Em todo o caso
falai. . . Importa tão
pouco o que dizemos ou não
dizemos. . . Velamos as horas que
passam. . . O nosso mister é
inútil como a Vida.. .
SEGUNDA. - Um dia, que chovera
muito, e o horizonte estava
mais incerto, o marinheiro
cansou-se de sonhar. . . Quis então
recordar a sua pátria verdadeira.
. . mas viu que não se lembrava
de nada, que ela não existia para
ele. . . Meninice de que se
lembrasse, era a na sua pátria de
sonho; adolescência que recordasse,
era aquela que se criara. . . Toda
a sua vida tinha sido
a sua vida que sonhara. . . E ele
viu que não podia ser que
outra vida tivesse existido. . .
Se ele nem de uma rua, nem de
uma figura, nem de um gesto
materno se lembrava... E da
vida que lhe parecia ter sonhado,
tudo era real e tinha sido. . .
Nem sequer podia sonhar outro
passado, conceber que tivesse
tido outro, como todos, um
momento, podem crer. . . Ó minhas
irmãs, minhas irmãs. . . Há
qualquer coisa, que não sei o
que é, que vos não disse. . .
qualquer coisa que explicaria isto
tudo. . . A minha alma esfria-me.
. . Mal sei se tenho estado
a falar. . . Falai-me, gritai-me,
para que eu acorde, para que
eu saiba que estou aqui ante vós e
que há coisas que são apenas
sonhos. . .
PRIMEIRA (numa voz muito
baixa). - Não sei que vos dig
a . . . Não ouso olhar para as
cousas. . . Esse sonho como continua?
. . .
SEGUNDA. - Não sei como era o
resto. . . Mal sei como era o
resto. . . Por que é que haverá
mais?
PRIMEIRA.
- E O
que aconteceu
depois?
SEGUNDA. - Depois? Depois de quê?
Depois é alguma cousa?.
. . Veio um dia um barco. . . Veio
um dia um barco. . . —
Sim, sim... só podia ter sido
assim... — Veio um dia um
barco, e passou por essa ilha, e
não estava lá o marinheiro. . .
TERCEIRA. - Talvez tivesse
regressado à Pátria... Mas a
qual?
PRIMEIRA. - Sim, a qual? E o que
teriam feito ao marinheiro?
Sabê-lo-ia alguém?
SEGUNDA. - Por que é que mo
perguntais? Há resposta para
alguma coisa?
(uma pausa)
TERCEIRA. - Será absolutamente
necessário, mesmo dentro do
vosso sonho, que tenha havido esse
marinheiro e essa ilha?
SEGUNDA. - Não, minha irmã; nada é
absolutamente necessário.
PRIMEIRA. - Ao menos, como acabou
o sonho?
SEGUNDA. - Não acabou. . . Não
sei. . . Nenhum sonho acaba.
. . Sei eu ao certo se o não
continuo sonhando, se o não
sonho sem o saber se o sonhá-lo
não é esta coisa vaga a que
eu chamo a minha vida?. . . Não me
faleis mais. . . Principio
a estar certa de qualquer coisa,
que não sei o que é. . . Avançam
para mim, por uma noite que não é
esta, os passos de um
horror que desconheço. . . Quem
teria eu ido despertar com o
sonho meu que vos contei?. . .
Tenho um medo disforme de
que Deus tivesse proibido o meu
sonho. . . Ele c sem dúvida
mais real do que Deus permite. . .
Não estejais silenciosas.. .
Dizei-me ao menos que a noite vai
passando, embora eu o saib
a . . . Vede, começa a ir ser d i
a . . . Vede: vai haver o dia
real. . . Paremos. . . Não
pensemos mais. . . Não tentemos seguir
nesta aventura interior. . . Quem
sabe o que está no fim
dela?... Tudo isto, minhas irmãs,
passou-se na noite... Não
falemos mais disto, nem a nós
próprios. . . É humano e conveniente
que tomemos, cada qual, a sua
atitude de tristeza.
TERCEIRA. - Foi-me tão belo
escutar-vos. . . Não digais que
não. . . Bem sei que não valeu a
pena. . . É por isso que o achei
belo... Não foi por isso, mas
deixai que eu o diga... De
resto, a música da vossa voz, que
escutei ainda mais que as
vossa palavras, deixa-me. talvez
só por ser música, descontente.
. .
SEGUNDA. - Tudo deixa descontente,
minha irmã. . . Os homens
que pensam cansam-se de tudo,
porque tudo muda. Os
homens que passam provam-no,
porque mudam com tudo. . .
De eterno e belo há apenas o
sonho. . . Por que estamos nós
falando ainda?.. .
PRIMEIRA.
- Não sei. . .
(olhando para o
caixão, em voz mais
baixa)
— Por que é que se
morre?
SEGUNDA. - Talvez por não se
sonhar bastante. . .
PRIMEIRA. - É possível. . . Não
valeria então a pena fecharmo-
nos no sonho e esquecer a vida,
para que a morte nos esquecesse?
. . .
SEGUNDA. - Não, minha irmã, nada
vale a pena. . .
TERCEIRA. - Minhas irmãs, é já d i
a . . . Vede, a linha dos
montes maravilha-se. . . Por que
não choramos nós?. . . Aquela
que finge estar ali era bela, e
nova como nós, e sonhava também
. . . Estou certa que o sonho dela
era o mais belo de todos.
. . Ela de que sonharia?. . .
PRIMEIRA. - Falai mais baixo. Ela
escuta-nos talvez, e já sabe
para que servem os sonhos. . .
(uma pausa)
SEGUNDA. - Talvez nada disto seja
verdade. . . Todo este silêncio
e esta morta, e este dia que
começa não são talvez senão
um sonho. . . Olhai bem para tudo
isto. . . Parece-vos que pertence
à vida?. . .
PRIMEIRA. - Não sei. Não sei como
se é da vida. . . Ah,
como vós estais parada! E os
vossos olhos são tristes, parece
que o estão inutilmente. . .
SEGUNDA. - Não vale a pena estar
triste de outra maneira. . .
Não desejais que nos calemos? É
tão estranho estar a viver. . .
Tudo o que acontece é
inacreditável, tanto na ilha do marinheiro
como neste mundo. . . Vede, o céu
é já verde. O horizonte
sorri ouro. . . Sinto que me ardem
os olhos, de eu ter pensado
em chorar.. .
PRIMEIRA. - Chorastes, com efeito,
minha irmã.
SEGUNDA. - Talvez. . . Não
importa. . . Que frio é isto?. . .
Ah, é agora... é agora!...
Dizei-me i s t o . . . Dizei-me uma
coisa ainda. . . Por que não será
a única coisa real nisto tudo o
marinheiro, e nós e tudo isto aqui
apenas um sonho dele?. . .
PRIMEIRA. - Não faleis mais, não
faleis mais. . . Isso é tão
estranho que deve ser verdade. . .
Não continueis. . . O que íeis
dizer não sei o que é, mas deve
ser demais para a alma o poder
ouvir. . . Tenho medo do que não
chegastes a dizer. . . Vede,
vede, é dia já. . . Vede o dia. .
. Fazei tudo por reparardes só
no dia, no dia real, ali fora. . .
Vede-o, vede-o. . . Ele consol
a . . . Não penseis, não olheis
para o que pensais. . . Vede-o
a vir, o dia. . . Ele brilha como
ouro numa terra de prata. As
leves nuvens arredondam-se à
medida que se coloram... Se
nada existisse, minhas irmãs?...
Se tudo fosse, de qualquer
modo, absolutamente coisa
nenhuma?. . . Por que olhastes
assim?. . .
(Não lhe respondem. E ninguém
olhara de nenhuma maneira.)
A
MESMA.
- Que foi isso que
dissestes e que me apavorou?. . .
Senti-o tanto que mal vi o que
era. . . Dizei-me o que foi, para
que eu, ouvindo-o segunda vez, já
não tenha tanto medo como
dantes. . . Não, não. . . Não
digais nada. . . Não vos pergunto
isto para que me respondais, mas
para falar apenas, para me não
deixar pensar. . . Tenho medo de
me poder lembrar do que
foi. . . Mas foi qualquer coisa de
grande e pavoroso como o haver
Deus. . . Devíamos já ter acabado
de falar... Há tempo
já que a nossa conversa perdeu o
sentido... O que é entre nós
que nos faz falar prolonga-se
demasiadamente... Há mais presenças
aqui do que as nossas almas... O
dia devia ter já raiado.
. . Deviam já ter acordado...
Tarda qualquer coisa...
Tarda tudo... O que é que se está
dando nas coisas de acordo
com o nosso horror?. . . Ah, não
me abandoneis. . . Falai comigo,
falai comigo. . . Falai ao mesmo
tempo do que eu para
não deixardes sozinha a minha
voz... Tenho menos medo à
minha voz do que à idéia da minha
voz, dentro de mim, se for
reparar que estou falando. . .
TERCEIRA. - Que voz é essa com que
falais?. . . É de outra. . .
Vem de uma espécie de longe. . .
PRIMEIRA. - Não sei. . . Não me
lembreis isso. . . Eu devia
estar falando com a voz aguda e
tremida do medo. . . Mas já
não sei como é que se fala. . .
Entre mim e a minha voz abriu-se
um abismo. . . Tudo isto, toda
esta conversa e esta noite, e este
medo — tudo isto devia ter
acabado, devia ter acabado de repente,
depois do horror que nos
dissestes. . . Começo a sentir
que o esqueço, a isso que
dissestes, e que me fez pensar que eu
devia gritar de uma maneira nova
para exprimir um horror de
aqueles. . .
TERCEIRA
(para a SEGUNDA).
- Minha irmã,
não nos devíeis
ter contado esta história. Agora
estranho-me viva com
mais horror. Contaveis e eu tanto
me distraía que ouvia o sentido
das vossas palavras e o seu som
separadamente. E parecia-
me que vós, e a vossa voz, c o
sentido do que dizíeis eram
três entes diferentes, como três
criaturas que falam e andam.
SEGUNDA. - São realmente três
entes diferentes, com vida própria
e real. Deus talvez saiba por quê.
. . Ah. mas por que é
que falamos? Quem é que nos faz
continuar falando? Por que
falo eu sem querer falar? Por que
é que já não reparamos que
é dia?. . .
PRIMEIRA. - Quem pudesse gritar
para despertarmos! Estou a
ouvir-me a gritar dentro de mim,
mas já não sei o caminho da
minha vontade para a minha
garganta. Sinto uma necessidade
feroz de ter medo de que alguém
possa agora bater àquela porta.
Por que não bate alguém à porta?
Seria impossível c eu tenho
necessidade de ter medo disso, de
saber de que é que tenho
medo. . . Que estranha que me
sinto!. . . Parece-me já não ter
a minha voz. . . Parte de mim
adormeceu e ficou a ver. . . O
meu pavor cresceu mas eu já não
sei senti-lo. . . Já não sei em
que parte da alma é que se sente.
. . Puseram ao meu sentimento
do corpo uma mortalha de chumbo. .
. Para que foi que nos
contastes a vossa história?
SEGUNDA. - Já não me lembro. . .
Já mal me lembro que a
contei. . . Parece ter sido já há
tanto tempo!. . . Que sono, que
sono absorve o meu modo de olhar
para as coisas!... O que é
que nós queremos fazer? o que é
que nós temos idéia de fazer?
— já não sei se é falar ou não
falar. . .
PRIMEIRA. - Não falemos mais. Por
mim, cansa-me o esforço
que fazeis para falar. . . Dói-me
o intervalo que há entre o que
pensais e o que dizeis. . . A
minha consciência bóia à tona da
sonolência apavorada dos meus
sentidos pela minha pele.. .
Não sei o que é isto, mas é o que
sinto. . . Preciso dizer frases
confusas, um pouco longas, que
custem a dizer. . . Não sentis
tudo isto como uma aranha enorme
que nos tece de alma a
alma uma teia negra que nos
prende?
SEGUNDA. - Não sinto nada... Sinto
as minhas sensações
como uma coisa que se sente. . .
Quem é que eu estou sendo?
. . . Quem é que está falando com
a minha voz?. . . Ah.
escutai. ..
PRIMEIRA
e TERCEIRA.
- Quem foi?
SEGUNDA. - Nada. Não ouvi nada. .
. Quis fingir que ouvia
para que vós supusésseis que
ouvieis e eu pudesse crer que havia
alguma coisa a ouvir. . . Oh, que
horror, que horror íntimo
nos desata a voz da alma, e as
sensações dos pensamento, e nos
faz falar e sentir e pensar quando
tudo em nós pede o silêncio
e o dia e a inconsciência da vida.
. . Quem é a quinta pessoa
neste quarto que estende o braço e
nos interrompe sempre que
vamos a sentir?
PRIMEIRA. - Para que tentar
apavorar-me? Não cabe mais terror
dentro de mim. . . Peso
excessivamente ao colo de me
sentir. Afundei-me toda no lodo
morno do que suponho que
sinto. Entra-me por todos os
sentidos qualquer coisa que nos
pega e nos vela. Pesam-me as
pálpebras a todas as minhas sensações.
Prende-se a língua a todos os meus
sentimentos. Um
sono fundo cola uma às outras as
idéias de todos os meus gestos.
Por que foi que olhastes assim?. .
.
TERCEIRA (numa voz muito lenta
e apagada). - Ah, é agora,
é agora. . . Sim, acordou
alguém... Há gente que acorda. . .
Quando entrar alguém tudo isto
acabará. . . Até lá façamos por
crer que todo este horror foi um
longo sono que fomos dormindo.
. . É dia já. . . Vai acabar
tudo... E de tudo isto fica.
minha irmã, que só vós sois feliz,
porque acreditais no sonho.
. .
SEGUNDA. - Por que é que mo
perguntais? Por que eu o disse?
não, não acredito. . .
Um galo canta. A luz. como que
subitamente, aumenta. As ires vela
doras quedam-se silenciosas e sem
olharem umas para as oulras.
Não muito longe, por uma estrada,
um vago carro geme e chia.
11/12 outubro, 1913
Livro do Desassossego - Fernando Pessoa
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