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Sakiamuni e a Tigresa
Em
Savati, vivia uma velha mulher, cujos dois filhos roubavam
freqüentemente. Eles acabaram sendo apanhados, levados diante de um
juiz, julgados e condenados à morte. Seguidos pela mãe, sendo levados
por pessoas de castas inferiores para o local da execução, viram o Buda
vindo a uma certa distância.
A
velha
mãe se prostrou diante dele e fez um apelo: "Senhor dos deuses, olhe
para nós com compaixão! Salve a vida de meus filhos, que estão prestes a
morrer!" O Tatagata Buda ouviu e olhou-os com compaixão. Para salvar
aquelas vidas, mandou Ananda fazer um apelo ao rei em benefício dos
condenados. O rei, ouvindo os pedidos do Buda, soltou-os.
Eles
ficaram extremamente felizes com a enorme bondade do Buda e
imediatamente saíram à sua procura. Quando o encontraram, inclinaram a
cabeça até o chão e uniram as mãos numa súplica: "Senhor dos deuses, por
causa de sua enorme bondade poderemos viver o resto de nossas vidas.
Então, por favor, olhe para nós com compaixão e conceda-nos a ordenação,
para que assim possamos seguir o Darma."
O
Buda respondeu: "Isto é ótimo." E imediatamente os cabelos e bigodes dos
irmãos desapareceram de suas cabeças e suas roupas viraram cor de
açafrão.
Por
causa de sua inabalável confiança no Buda e porque este lhes deu os
ensinamentos do Darma de que precisavam, eles alcançaram o estado dos
arhats, eliminando todos os vestígios de obscurecimentos — os kleshas,
ou emoções perturbadoras, conhecidos como cinco venenos: ignorância,
desejo, raiva, orgulho e inveja. A velha mãe, através dos ensinamentos
do Darma, alcançou o estado dos que não têm de renascer novamente.
Diante
disso, Ananda proclamou: "Nós testemunhamos algo fantástico! Estas são
as qualidades do Buda." Consigo mesmo, no entanto, pensou: "O que terão
feito esta mãe e seus filhos no passado para, depois de um encontro com
Bagavan Buda, não apenas escaparem de uma grande infelicidade, como
também chegarem à felicidade do nirvana e a todos os benefícios que
podem ser adquiridos em uma só vida?"
O
Buda, sabendo o que Ananda pensava, disse-lhe: "Não ajudei essa mãe e
seus filhos apenas nesta vida. Eu os ajudei com grande bondade num
passado muito distante." Ananda então pediu, "Por favor, conte-nos como
os ajudou num passado muito distante".
O
Buda então contou:
"Muito
tempo atrás, há incontáveis kalpas, vivia neste mundo um rei chamado
Maharata (grande condutor) que tinha poder sobre cinco mil governantes
regionais. Ele tinha três filhos. O mais velho se chamava Maharava
(Grande Som), o do meio Mahadeva (Grande Divinidade) e o mais moço
Mahasatva (Grande Ser). O mais moço, Mahasatva, sempre tivera muito amor
e compaixão, mesmo quando criança. Sentia isso por todos os seres como
se cada um fosse seu único filho.
Um
dia, o rei e seus ministros, junto com a rainha e os príncipes, saíram
do palácio para passear pelo campo. Enquanto o grupo descansava um
pouco, os três príncipes deixaram o lugar e mergulharam nas profundezas
da floresta. Lá, encontraram uma tigresa. Ela tinha tido filhotes, mas,
sem nada para comer ou beber há muito tempo, tentava comer os próprios
filhos.
Mahasatva
disse aos irmãos, "Esta tigresa está sofrendo. Ela está tão fraca e
magra que vai morrendo e quer até comer seus filhos recém-nascidos".
Eles responderam, "Sim, o que você diz é verdade".
E
ele perguntou, "O que uma tigresa come?".
Responderam-lhe
que ela só comia carne crua e sangue quente de algum corpo morto há bem
pouco tempo.
"Podemos conseguir algo assim para ela, para salvarmos sua vida?",
perguntou Mahasatva.
"Dificilmente", disseram os irmãos mais velhos.
Isso
levou Mahasatva a refletir: "Venho dando voltas e voltas em samsara,
despediçando um incontável número de vidas e de corpos. Joguei fora
minhas vidas por causa do desejo, da raiva ou da estupidez. Qual é o
melhor uso que posso dar agora a este corpo, que nunca foi útil para
acumular mérito para a prática do Darma?" Pensando assim, tomou uma
decisão.
Os
três príncipes começaram a voltar para o acampamento real, mas antes de
terem se afastado muito, Mahasatva disse: "Vão indo na minha frente que
alcanço vocês depois." Assim que os irmãos seguiram, ele voltou
rapidamente até a tigresa e deitou-se diante dela.
Mas
a tigresa estava muito fraca até para abrir a boca. Mahasatva encontrou
um pedaço de madeira afiado e cortou-se, deixando o seu sangue escorrer
na boca da tigresa, para que ela pudesse lambê-lo. Assim, pouco a pouco,
ela recuperou a força para abrir a boca e se alimentar da carne dele.
Enquanto
isso, os dois irmãos mais velhos esperavam. Como o caçula estava
demorando muito para voltar, decidiram procurá-lo. Pensando bem,
concluíram que ele devia ter voltado para saciar a fome da tigresa.
Foram ver. Quando lá chegaram, seu pequeno irmão tinha sido comido vivo,
e a tigresa saciara-se de carne e sangue. Eles perderam os sentidos e,
ao voltarem a si, rolaram no chão aos soluços, até desmaiarem de novo.
Enquanto
isso, a rainha dormia e sonhava com três pombos que brincavam pelo céu.
Enquanto ela observava, um falcão apareceu, apanhou o pombo menor e
levou-o embora. A rainha acordou, sentindo um medo horrível, e foi falar
de seu sonho ao rei: "Ouvi dizer que pombos, num sonho, simbolizam os
próprios filhos. E se o falcão apanhou o menor deles, isso significa que
alguma coisa terrível deve ter acontecido com meu filho mais querido."
A
busca aos príncipes começou imediatamente, mas logo apareceram os dois
mais velhos. A rainha perguntou: "O meu amado filho está a salvo ou
alguma coisa aconteceu a ele?"
Os
outros dois quase não conseguiram responder, com a voz presa na
garganta: "Ele foi comido por um tigre." Ao ouvir isso, a rainha caiu
desmaiada. Quando já tinha voltado a si, a família real, acompanhada de
seus empregados, foi até o lugar onde o jovem príncipe deixara o mundo.
Lá
chegando, viram que a tigresa tinha comido toda a carne do príncipe.
Sobrava apenas uma massa de sangue e ossos no chão da floresta.
Soluçando, a rainha apanhou o crânio, o rei os ossos da mão, e ambos
desmaiaram. Demorou muito para serem reanimados.
Enquanto
isso, Mahasatva, depois de morrer ali, renascia no paraíso Tushita.
Agora uma divindade, num reino de felicidade, pensava: "O que terei
feito na minha última vida para renascer aqui?" E, usando a visão
extraordinária de uma existência divina, investigou as cinco espécies de
seres do samsara até encontrar os restos de sua última existência
espalhados na floresta, onde seu pai e sua mãe ainda soluçavam.
Ele
pensou: "Essa tristeza pode levar meus pais à morte. Preciso falar com
eles e dar-lhes um pouco de felicidade." Assim, foi pelo espaço até o
ponto do céu acima deles e disse-lhes coisas agradáveis, diminuindo seu
sofrimento e fazendo-os mais felizes. O rei e a rainha perguntaram a
essa divindade no espaço acima deles: "Quem é você, ser divino? Por
favor, diga-nos."
Ele
respondeu: "Sou o príncipe Mahasatva. Renasci no paraíso de Tushita por
ter dado meu corpo a uma tigresa faminta. Seres de grande bondade,
ouçam-me e entendam. Tudo que vive e todas as coisas têm um fim. Tudo
que nasce vai morrer. Se alguém pratica más ações, vai cair no inferno.
Se pratica boas ações, vai renascer no paraíso. Para todos há nascimento
e morte. Então, por que vocês estão mergulhados num mar de tristeza
apenas por minha causa? Esforcem-se para fazer o bem."
Seus
pais, no entanto, perguntaram: "Se você tem amor e compaixão por todos
os seres, tanto que se sacrificou por causa de uma tigresa, por que
esqueceu de nós? Quando pensamos em você, agora, sentimos tanta dor! É
como se nossos corpos tivessem sido rasgados em pequenos pedaços."
A
divindade sobre eles respondeu com palavras tão confortadoras e
agradáveis que eles se consolaram e não mais ficaram oprimidos pela dor.
Fizeram uma caixa adornada com sete espécies de jóias, juntaram os ossos
e os colocaram lá dentro. Depois construíram uma stupa, relicário
sagrado de seres iluminados, e lá puseram os restos do seu filho.
Mahasatva, agora um ser divino, voltou ao paraíso de Tushita e o rei, a
rainha e sua grande comitiva voltaram ao palácio.
Isto
foi o que Buda contou. Depois, ele perguntou a Ananda: "O que está
pensando agora? Se quer saber quem é o rei Maharata, vou lhe dizer.
Nesta vida ele foi meu pai, o rei Sudodana. Sua esposa, a rainha, foi
nesta vida minha mãe, a rainha Mahamaia Devadana. O príncipe mais velho
é agora Maitréia. O príncipe do meio é Sumitra. Já o príncipe mais moço,
não há necessidade de ficar pensando se ele se transformou em outra
pessoa porque ele é hoje eu mesmo, o Buda."
"A
tigresa é hoje a velha mãe e os dois filhotes são agora seus dois
filhos. Foi assim que, muito tempo atrás, salvei-os do sofrimento e
levei-lhes felicidade. E hoje, que alcancei o estado de Buda, novamente
os salvei do sofrimento. Mas, desta vez, libertei-os completamente de
todo o vasto sofrimento do samsara."
Ananda
e toda comitiva do Bagavan Tatagata Buda sentiram grande alegria ao
ouvir suas palavras e todos as louvaram.
Estória recontada por Thrangu Rinpoche.
Contos Tibetanos
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